sábado, 16 de abril de 2011

"Diário de um Cucaracha"


Por esses dias terminei de ler o livro “Diário de um Cucaracha” do Henfil, é um que tem uma baratona na capa. Cara essa barata é muito realista mesmo!

Mas voltando a idéia inicial, o livro, é engraçado na medida certa, crítico na medida certa e com algumas sacadas muito boas, é claro que tem lá seus pontos falhos, mas que só são perceptíveis agora, quase, vá lá, 40 anos depois, e é normal já que o cara tá expressando suas opiniões. Gostei do estilo despojado, o livro é composto das cartas que ele escrevia para amigos, para a mãe, o legal é que você meio que se sente vivendo o momento sabe, todas as descobertas (tanto boas quanto más) do Henfil nos EUA, e a barra que se enfrentava por aqui com a ditadura . Já comecei, por sinal, a ler “Henfil na China (Antes da Coca-cola)” e também estou gostando.


Conheci sua obra por acaso, e desde então pesquiso sobre seus cartuns, muito ricos e participativos socialmente, explico: são personagens ácidos, histórias críticas, não passam nem perto da alienação que me parece muitas vezes domina esse segmento artístico (Obviamente não só esse segmento), e o legal nos livros é que você percebe que o Henfil é um cara engajado mesmo, envolvido com questões políticas e tal, e preocupado em não vender sua arte, não banalizar colocando a cara de alguma personagem em camiseta, isso é legal, e é desse tipo de demonstração que sempre se precisa. De pessoas que se preocupem com o social sabe, e não só em enriquecer.

Separei dois trechos de cartas:

“Eu estava com um trabalho gigantesco pela frente: contar a mesma coisa para pelo menos 50 pessoas, pois mantenho correspondência com 25 pessoas no Brasil e fora, de maneira mais ou menos regular, uma loucura! E depois, quando voltasse, teria de contar para centenas de pessoas que me conhecem ou vão me conhecer e me cobrar. Apavorado com isso, decidi cortar o trabalho em um só. Escrever tudo e mandar mimeografar e mandar para os amigos. Mas ai eu pensei: pô, isto é uma denúncia de uma situação absolutamente desconhecida para muitos artistas e humoristas brasileiros, que ficam mal se agüentando nas calças para vir para cá. Tenho de dar uma avisada a esses doidos e tenho de aproveitar minha penetração para que possam realmente acreditar nisto. E quando é depoimento pessoal, as pessoas não só acreditam como sentem como sendo delas mesmas a experiência. E o meu trabalho sempre foi este e é assim que sei trabalhar. Me colocando pra fora e me expondo. Não sofro nada com isto, e tudo o que ganhei até hoje (amigos e amigos) foi nesta base. Minhas charges são assim expostas.” New York, 7 de Maio de 1975

“Taí por que foi tão fácil instalar, sem resistência, uma ditadura no Brasil. No país dos coitadinhos, todo mundo da um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra sair dela. Ainda curtimos esta fantasia eunuca de vitória moral...

Desconverso.

Olha, quando falei que a gente não tem compromisso com o Brasil, eu queria te chocar mesmo, pra melhor te abrir para o seguinte: você não é brasileiro, você é homem. Brasileiro é só raça. E homem é brasileiro, chinês, boliviano, e dinamarquês. Acho que todo homem pode realizar seus potenciais em qualquer parte do mundo. Inclusive que, na perspectiva de lutar só no Brasil, muitas coisas deixam de ser vistas e muita coisa acontece sem que a gente possa fazer nada, porque está preso ao crachá que nos botaram ao nascer.

Tô te pregando alienação, não, pelamor de Deus! Nem pregando o mundo multinacional, o xóping Center global, nunca! Prego o internacionalismo mental. Um cara com uma visão internacional tem mais facilidade inclusive de ver o seu compromisso com o Brasil.

Mas o que é o Brasil? Terras e homens. E homem é um treco internacional. Tem igualzinho em todas as terras da Terra. E ninguém tem o direito de ir para outras terras agredir o seu povo, assim como não tem o direito de agredir o povo desta nova terra. Meus sentimentos são parte da cultura dos habitantes de uma terra chamada Brasil. Me emociono com nossa música, com nosso jeito, com nossa comida, tudo. Mas me emociono com iguais músicas e jeitos e comidas e costumes de todas as partes do mundo.

Lute com tudo pela preservação cultural do povo brasileiro, mas lute com a mesma intensidade pela preservação também da cultura hindu, peruana, canadense. Penso assim. Não dividir os homens em times de futebol (ou países) e aí passar a torcer por um deles. Claro que a gente tem que jogar num time. Mas sem se limitar a ponto de só jogar em um time. Jogar em todos, se puder.

Uma coisa não se pode fazer: jogar no time dos donos. Eles, aliás, não jogam e sim dirigem.

E agora me diz: e quando um time ou um país ficar bem dopado pelas palavras de ordem dos donos (nazismo, fascismo, stalinismo, americanismo, país grande...)? Que fazer? Infelizmente a gente vai ter que lutar contra este time de homens como nós, vamos ter que inclusive romper com milhares de nós.

Olha, vivendo aqui, nesta riqueza de país potência mundial, estou vendo a identidade que existe entre nossos povos. Inclusive já consigo me emputecer com as desgraças do homem americano. Já consigo distinguir Roquifeller Corporation de John ou Peter ou Paul, enfim de 220 milhões de fudidos que nem nós. Aliás, você já deve ter lido que tem mais de 30 milhões de subnutrido aqui, não? Que andam inclusive tendo que apelar para comida de cachorro pra poder comer uma vez por dia. Deu na TV. E os hospitais que atendem ao povo americano, que são iguais ou piores que os do INPS da gameleira?

Mais: o povo americano não sabe rigorosamente nada sobre o que acontece fora dos EUA. Há um cordão sanitário dos donos do jogo que permite uma visão deformada só do que acontece internamente. Imagina um brasileiro que tivesse sua informação cuidada apenas pela AERP. Pois assim é o americano, totalmente pasteurizado pela imensa, particular, competente AERPUSA.

Este país é um dos mais corruptos do mundo desde que nasceu. Mas o povo só está começando a ser informado disto agora: 200 anos depois da independência!

Me identifico tremendamente com o povo americano, como me identifico com o povo brasileiro, chileno, russo ou vietnamita. Mas, se qualquer um destes povos ficar cego e passar a obedecer ordens dos donos, eu tô do lado de lá contra o de cá.

Este tipo de papo pode dar chances a que um babaca chegue e pergunte: peraí, se houver uma guerra entre Brasil e a Rússia, com quem você ficaria? Se lembra dessa pergunta que fizeram ao Luís Carlos Prestes?

Ô pô! Então me responde agora. Se Hitler tivesse sido brasileiro você lutaria de que lado, do Brasil nazista?

Quero dizer que não concordo quando você diz que manda calhamaços cheios de lamúrias imbecis. Nosso problema, mano, é que somos muito mineiros conosco. Mineiros na pior coisa que tem em Minas, que é justamente (eu sei, sou daí) esta auto-repressão luterana calvinista. Aquela que faz a gente achar que é o responsável direto pela morte de Jesus e aí só se redime se sofrer as chagas nas mãos e nos pés.

Fora, Bruxa! Somos alegres, explosivos, vitais, engraçados por dentro. Mas nos reprimimos na hora de comunicar.

Abração do internacional Henfil, o brasileiro.” New York, 22 de Julho de 1974




quinta-feira, 14 de abril de 2011

DECISÕES INVISÍVEIS

Ninguém está te olhando, ninguém esta te patrulhando, ninguém está te cobrando...

Mas, ser humano que você é, você opta, opta pelo correto, opta pelo certo. Pois você pensa, pensa por si próprio, e sabe o que está certo, e sabe o que não fará mal a ninguém no seu íntimo você sabe. Você sabe apesar de toda a ditadura de iformação, você sabe...e em você começa a libertação, a libertação de posturas impostas por almas tacanhas que pensam apenas na economia e apenas visam lucros.

Talvez não exista outra vida, talvez não exista mais tempo, talvez esse seja o momento. Seja o momento de você escolher dizendo não às injustiças, não aceitando engolir goela abaixo nenhum tipo de barbaridade.

Direita e esquerda são apenas indicação de lado, não formas de pensar. É chegado o tempo de pensar na nossa saúde, no nosso vizinho, no nosso bairro, e assim aos poucos iniciar uma revolução planetária e silenciosa. Senão agora, quando? Amanhã? Talvez hoje seja o amanhã...

O Grande Mentecapto

Foi ele. Esse iluminado de olhos cintilantes e cabelos desgrenhados que um dia saltou dentro de mim e gritou basta!

Num momento que meu ser civilizado, bem penteado, bem vestido e ponderado dizia sim a uma injustiça. Foi ele quem amou a mulher e a colocou num pedestal e lhe ofertou uma flor. Foi ele quem sofreu quando jovem a emoção de um desencanto, e chorou quando menino a perda de um brinquedo, debatendo-se na camisa de força com que lhe tolhiam o protesto...

Seu protesto. Este ser engasgado, contido, subjugado pela ordem iníqua dos racionais é o verdadeiro fulcro da minha verdadeira natureza, o cerne da minha condição de homem, herói e pobre-diabo, pária, negro, judeu, índio, cigano, santo, poeta, mendigo e débil mental, viramundo! Que um dia há de rebelar-se dentro de mim, enfim liberto, poderoso na sua fragilidade, terrível na pureza da sua loucura.

Trecho do livro: O Grande Mentecapto (Fernando Sabino)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Para não dizer que não falei de Nietzsche

“ Um famoso filósofo alemão do século passado, Frederico Nietzsche, tece uma crítica radical a civilização ocidental, dizendo que ela educa os homens para desenvolverem apenas o instinto da tartaruga. O que quer dizer isso? A tartaruga é o animal que, diante do perigo, da surpresa, recolhe a cabeça para dentro de sua casca. Anula assim, todos os seus sentidos e esconde, também na casca, os membros, tentando proteger-se contra o desconhecido. Este é o instinto da tartaruga: defender-se, fechar-se ao mundo, recolher-se para dentro de si mesma e , em conseqüência, nada ver, nada sentir, nada ouvir, nada ameaçar.” (Neidson Rodrigues, Lições do príncipe e outras lições)

“Precisamos assumir o desafio de educar o homem para desenvolver o instinto da águia. A águia é o animal que voa acima das montanhas, que desenvolve seus sentidos e habilidades, que aguça ouvidos, olhos e competência para ultrapassar os perigos, alçando vôo acima deles. É capaz, também, de afiar as suas garras para atacar o inimigo, no momento que julgar mais oportuno.” (Idem)

'breaking bad'

Sometimes, life forces you to cross the line. You're going about your normal everyday routine, when suddenly something truly awful happens and all that pent-up rage you feel about your job, your marriage, your very existence, is released with unstoppable fury. Some call it 'reaching the breaking point' others call it 'breaking bad'.