sábado, 25 de junho de 2011

O encontro marcado

Não quero dar uma aqui de pseudo-intelectual, não é minha intenção fazer uma análise mais aprofundada de livros ou coisa que o valha, mas gosto de escrever sobre algumas coisas que gostei.

“Je cherche em gémissant”

É dito pelas tantas por alguma personagem do livro, que pelo que sei é meio autobiográfico, do Fernando Sabino “O encontro marcado”, li em alguma crônica dele mesmo por sinal que para ser um escritor é necessário se revelar, é como se fosse um sacrifício necessário do oficio.

Ultimamente acredito que se alguém quiser me conhecer é só ler esse livro que vai ter uma boa imagem de mim, nem tanto pelo que julgo serem pontos positivos, mas sim pelos questionamentos em relação à percepção da vida, levemente confusa. Acho que por ter essa dose de confidências do escritor, naturalmente muitas pessoas vão se identificar com o Eduardo Marciano, o protagonista do livro, ele é uma personagem atemporal, carismático, cheio de dúvidas e anseios, ele se situa entre Ferris bueller e Holden Caulfield.

Sempre tentando escrever o seu romance. Ele ao longo do livro vai percebendo muita coisa, e assim se despindo do seu orgulho e se revestindo de coragem e um certo senso de liberdade, que é algo como uma ruptura com o lugar-comum, ou o marasmo, que a sua vida poderia seguir, sendo assim apenas um exemplo de bom-mocismo, ou coisa que o valha. E no fim, percebe-se que o caminho todo foi uma busca, e ele conseguiu nessa jornada um grande crescimento pessoal, só que isso não acontece de graça (“Je cherche em gémissant”).

Os momentos da juventude com o amigos são ricos em citações, admito que tive de pesquisar algumas coisas, como por exemplo nomes de autores, e a própria frase ai do começo do texto, mas explico, essas citações não soam mal, mas são sim devido a necessidade de se expressar, de se expressar profundamente aquilo que se quer dizer, fugindo de uma certa alienação reinante.

Vai ai um trecho:

Os dois visitantes se entreolharam, sem entender. Seu Marciano suspirou mais descansado.

-Surrealismo: a libertação dos impulsos do subconsciente em forma de arte. A vitória sobre a censura do consciente. Sonhos, Freud, psicanálise – essa história toda.

-E vocês... são surrealistas?

-Que pretendem, afinal?

-Não sabemos ainda. Pretendemos – e o jovem inclinou-se para a frente, juntando os dedos, olhar brilhante – não a libertação do nosso subconsciente em forma de arte, o que os surrealistas já fizeram e cansaram de fazer – vocês nunca ouviram falar em André Breton? Não, pelo jeito nunca ouviram. Bem, mas eu dizia: não a libertação dos impulsos do subconsciente de cada um, compreende? Mas o desencadeamento das forças comuns a todo homem, de toda a humanidade, sabe como é? Adormecidas, há séculos, pelas exigências da vida em sociedade. Subjugadas pelos preconceitos. A moral burguesa. As convenções sociais. O lugar-comum. Essa coisa toda. Uma espécie de subconsciente coletivo, de que Freud não pensou, nem ele, nem ninguém.

-Você pensa que Freud...- e o Dr. Lombardi pigarreou. Eduardo não o ouvia:

-Estudaram a psicologia das multidões mas se esqueceram de levar o estudo até as profundas do inferno, isto é, do subconsciente da humanidade. Agora, esse subconsciente é que virá a tona, enfim liberto, e será, belo, será terrível! Será o regime do terror, a própria loucura.

Parte 2 (das duas que selecionei):

-Hugo ontem vomitou sangue.

-Eu vi. Aquilo era sangue?

-Só podia ser.

Calaram-se, impressionados, ficaram pensando.

-Você acha que isso quer dizer...

-Não quer dizer nada. Isso acontece, o álcool costuma irritar a mucosa do estômago, pode ferir. Ele bebeu com estômago vazio. Não era hemoptise.

-E o doutor acha que devemos dizer a ele?

-Doutor é a mãe. Não, não diga nada, para que assustar o rapaz?

Em pouco chegava Hugo:

-Então a coisa ontem esteve feia, hein? Dei muito trabalho?

-Se deu. Mas o doutor aqui acha que você está fora de perigo. Sabia que Bouvard e Pécuchet estiveram lá em casa, hoje?

-Como foi a reunião dos três grandes?

-Papai chegou falando o diabo de você.

-Foi uma palhaçada. Mas não tem importância. Olhem: comunico-lhes, solenemente, que está fundado o terrorismo.

Base do novo movimento: preconizar e difundir o terror, de todas as maneiras, em todas as suas manifestações. O Terror nas letras, cujo protótipo seria a novela “Metamorfose”, de Kafka.

-Kafka era um terrorista. Incentivar todas as situações terroristas, estabelecer o pânico, lançar o terror.

-E a solução? – perguntou Mauro.

-A solução é a conduta católica – respondeu o amanuense Belmiro.

-A solução é o próprio problema, sabe como é? Não há solução. Imagino a seguinte cena: um congresso de sábios do mundo, que se reuniram para resolver o problema do problemas, o problema transcendental, o Problema , Tout-court.

-Tout-court. Vá à merda.

-Ah, tout-court. Merci.

-Pois bem: estão reunidos, os sábios, a postos para começar a trabalhar, encontrar a solução do problema, e o Presidente do Congresso dá por iniciada a sessão, anunciando que vai, enfim, dizer qual é o Problema que os reuniu. Faz uma pausa, e declara solenemente: “Meus senhores! O problema é o seguinte: Não há problema!

-E daí?

-Daí os sábios terem de resolver o problema da inexistência do problema. É o terror.

-Confesso que não entendo.

-Vocês não entendem porque são burros: no nosso caso, é a mesma coisa. Só que há o problema, o que não há é a solução. Logo, está solucionado.

-E qual é o problema?

-O problema é o terror.

-Ah!

Calaram-se, os três, e riram, deslumbrados à idéia de que agora sim, estavam completamente doidos – os pais tinham razão.

-Es una cosa terrible, la inteligência!

-Unamuno não era terrorista.

-Dê três exemplos de situação terrorista.

-Um grito na igreja, uma gargalhada no velório, um árabe no elevador.

-Muito brando. É o que se pode chamar, apenas, de “terrorismo cor-de-rosa”. O verdadeiro terrorismo é o absurdo mais terrível, por exemplo: O Inevitável aconteceu! Se considerarmos o aconteceu, aí, como substantivo e não como verbo.

-Precisávamos é de uma coisa para símbolo.

-A coisa – prosseguiu Eduardo: - A Coisa é o símbolo. Ninguém sabe o que é. Está em toda parte e não está em lugar nenhum. Assume todas as formas. Pode ser um sentimento, um objeto, uma cor – só que tem de ser uma coisa, isto é: um substantivo. Por isso concluímos, há pouco, que aconteceu não era verbo. Onde a Coisa estiver, aí estará o terror.

sábado, 11 de junho de 2011

Não, isso tudo não existe

Felicidade, tristeza, aflições e alegrias

Só restam as lembranças

Guardadas todas em uma mala

Mala onde estão todos os acontecimentos

Não, não existe nada além do gosto de ter vivido

Não importam os aplausos, ou os murmúrios maledicentes

É apenas uma escada que estou subindo ou descendo

Tanto faz, tanto me faz

Já faz tanto tempo, só o tempo, só no tempo

Já não sofro, já não me alegro

Fico feliz em estar aqui parado olhando tudo isso

Minha mala estava tão pesada por um tempo

Mas agora apenas faz muito tempo

Os campos verdejantes de outrora são imagens vivas

Junto com as ruas molhadas pela chuva

Os sonhos e as músicas até que agradam

Mas não me importo

Não me importo se agrado não me importo se sou ouvido

Não me importo se querem me ouvir, não me importo com as grandes tempestades

Nem com os desertos, nem mesmo com a psicologia por trás disso

Não, isso tudo não existe