Não quero dar uma aqui de pseudo-intelectual, não é minha intenção fazer uma análise mais aprofundada de livros ou coisa que o valha, mas gosto de escrever sobre algumas coisas que gostei.
“Je cherche em gémissant”
É dito pelas tantas por alguma personagem do livro, que pelo que sei é meio autobiográfico, do Fernando Sabino “O encontro marcado”, li em alguma crônica dele mesmo por sinal que para ser um escritor é necessário se revelar, é como se fosse um sacrifício necessário do oficio.
Ultimamente acredito que se alguém quiser me conhecer é só ler esse livro que vai ter uma boa imagem de mim, nem tanto pelo que julgo serem pontos positivos, mas sim pelos questionamentos em relação à percepção da vida, levemente confusa. Acho que por ter essa dose de confidências do escritor, naturalmente muitas pessoas vão se identificar com o Eduardo Marciano, o protagonista do livro, ele é uma personagem atemporal, carismático, cheio de dúvidas e anseios, ele se situa entre Ferris bueller e Holden Caulfield.
Sempre tentando escrever o seu romance. Ele ao longo do livro vai percebendo muita coisa, e assim se despindo do seu orgulho e se revestindo de coragem e um certo senso de liberdade, que é algo como uma ruptura com o lugar-comum, ou o marasmo, que a sua vida poderia seguir, sendo assim apenas um exemplo de bom-mocismo, ou coisa que o valha. E no fim, percebe-se que o caminho todo foi uma busca, e ele conseguiu nessa jornada um grande crescimento pessoal, só que isso não acontece de graça (“Je cherche em gémissant”).
Os momentos da juventude com o amigos são ricos em citações, admito que tive de pesquisar algumas coisas, como por exemplo nomes de autores, e a própria frase ai do começo do texto, mas explico, essas citações não soam mal, mas são sim devido a necessidade de se expressar, de se expressar profundamente aquilo que se quer dizer, fugindo de uma certa alienação reinante.
Vai ai um trecho:
Os dois visitantes se entreolharam, sem entender. Seu Marciano suspirou mais descansado.
-Surrealismo: a libertação dos impulsos do subconsciente em forma de arte. A vitória sobre a censura do consciente. Sonhos, Freud, psicanálise – essa história toda.
-E vocês... são surrealistas?
-Que pretendem, afinal?
-Não sabemos ainda. Pretendemos – e o jovem inclinou-se para a frente, juntando os dedos, olhar brilhante – não a libertação do nosso subconsciente em forma de arte, o que os surrealistas já fizeram e cansaram de fazer – vocês nunca ouviram falar em André Breton? Não, pelo jeito nunca ouviram. Bem, mas eu dizia: não a libertação dos impulsos do subconsciente de cada um, compreende? Mas o desencadeamento das forças comuns a todo homem, de toda a humanidade, sabe como é? Adormecidas, há séculos, pelas exigências da vida em sociedade. Subjugadas pelos preconceitos. A moral burguesa. As convenções sociais. O lugar-comum. Essa coisa toda. Uma espécie de subconsciente coletivo, de que Freud não pensou, nem ele, nem ninguém.
-Você pensa que Freud...- e o Dr. Lombardi pigarreou. Eduardo não o ouvia:
-Estudaram a psicologia das multidões mas se esqueceram de levar o estudo até as profundas do inferno, isto é, do subconsciente da humanidade. Agora, esse subconsciente é que virá a tona, enfim liberto, e será, belo, será terrível! Será o regime do terror, a própria loucura.
Parte 2 (das duas que selecionei):
-Hugo ontem vomitou sangue.
-Eu vi. Aquilo era sangue?
-Só podia ser.
Calaram-se, impressionados, ficaram pensando.
-Você acha que isso quer dizer...
-Não quer dizer nada. Isso acontece, o álcool costuma irritar a mucosa do estômago, pode ferir. Ele bebeu com estômago vazio. Não era hemoptise.
-E o doutor acha que devemos dizer a ele?
-Doutor é a mãe. Não, não diga nada, para que assustar o rapaz?
Em pouco chegava Hugo:
-Então a coisa ontem esteve feia, hein? Dei muito trabalho?
-Se deu. Mas o doutor aqui acha que você está fora de perigo. Sabia que Bouvard e Pécuchet estiveram lá em casa, hoje?
-Como foi a reunião dos três grandes?
-Papai chegou falando o diabo de você.
-Foi uma palhaçada. Mas não tem importância. Olhem: comunico-lhes, solenemente, que está fundado o terrorismo.
Base do novo movimento: preconizar e difundir o terror, de todas as maneiras, em todas as suas manifestações. O Terror nas letras, cujo protótipo seria a novela “Metamorfose”, de Kafka.
-Kafka era um terrorista. Incentivar todas as situações terroristas, estabelecer o pânico, lançar o terror.
-E a solução? – perguntou Mauro.
-A solução é a conduta católica – respondeu o amanuense Belmiro.
-A solução é o próprio problema, sabe como é? Não há solução. Imagino a seguinte cena: um congresso de sábios do mundo, que se reuniram para resolver o problema do problemas, o problema transcendental, o Problema , Tout-court.
-Tout-court. Vá à merda.
-Ah, tout-court. Merci.
-Pois bem: estão reunidos, os sábios, a postos para começar a trabalhar, encontrar a solução do problema, e o Presidente do Congresso dá por iniciada a sessão, anunciando que vai, enfim, dizer qual é o Problema que os reuniu. Faz uma pausa, e declara solenemente: “Meus senhores! O problema é o seguinte: Não há problema!”
-E daí?
-Daí os sábios terem de resolver o problema da inexistência do problema. É o terror.
-Confesso que não entendo.
-Vocês não entendem porque são burros: no nosso caso, é a mesma coisa. Só que há o problema, o que não há é a solução. Logo, está solucionado.
-E qual é o problema?
-O problema é o terror.
-Ah!
Calaram-se, os três, e riram, deslumbrados à idéia de que agora sim, estavam completamente doidos – os pais tinham razão.
-Es una cosa terrible, la inteligência!
-Unamuno não era terrorista.
-Dê três exemplos de situação terrorista.
-Um grito na igreja, uma gargalhada no velório, um árabe no elevador.
-Muito brando. É o que se pode chamar, apenas, de “terrorismo cor-de-rosa”. O verdadeiro terrorismo é o absurdo mais terrível, por exemplo: O Inevitável aconteceu! Se considerarmos o aconteceu, aí, como substantivo e não como verbo.
-Precisávamos é de uma coisa para símbolo.
-A coisa – prosseguiu Eduardo: - A Coisa é o símbolo. Ninguém sabe o que é. Está em toda parte e não está em lugar nenhum. Assume todas as formas. Pode ser um sentimento, um objeto, uma cor – só que tem de ser uma coisa, isto é: um substantivo. Por isso concluímos, há pouco, que aconteceu não era verbo. Onde a Coisa estiver, aí estará o terror.
