quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Eu não estou lá.



O rapaz contou todos os seus planos, com eles seria possível preencher a vida inteira.
O amigo deitado no banco do passageiro sentindo o vento contra seu rosto pálido ouvindo Engenheiros do Hawaii, apenas murmurou: “Mas isso não é uma vida, é um fluxograma!” citando a famosa personagem de Quino.
Rindo ele percebeu que estava seguindo uma linha de raciocínio equivocada com um comentário concordou: “A comunicação torna simples o complexo! Demorou, mas ouvi uma verdade que foi suficiente para me convencer. Meus crimes são minhas ilusões.” E se calou.
Assim seguiu o tempo inexoravelmente, dobrando as esquinas deste mundo quadrado.
E isso tudo faz parte da linguagem poético-comercial.
E um dia, o rapaz foi visitar o amigo, e este teve um momento de alumbramento, como se enxergasse uma luz no fim do túnel, como se atingisse a superfície e conseguisse respirar. Houve, então, um comovente momento de espantosa emoção seguido de um derradeiro olhar de extraordinária intensidade.
Foi assim que o amigo partiu para o Oriente Eterno, como dizem por ai, e disse como que para abaixarem-se as cortinas:“O mundo não é uma escola, não é um laboratório e também não é uma prisão! A natureza não é um grande relógio, não vamos confundir as coisas. Toda vez que tento me alcançar para encontrar-me  no tempo, eu não estou lá! E nesse momento descobri o porquê, pois não foi o tempo cronológico quem ditou as regras, foi o tempo subjetivo o “Cairós”. Engraçado, no fim das contas a vida não é factual.”

O ilógico caminho traçado pelo entregador de pizzas



 No distante horizonte da idéia de trabalhar com partículas subatômicas reside a não tão atípica vontade de se comer pizza.
 Ele havia já há duas horas pedido a tal da pizza. Mas não sabia, e nem poderia imaginar no caminho que o entregador faria. Ele teve a passagem liberada na portaria, e ai está a sacada, pois entregadores de pizza tem acesso livre a qualquer lugar do planeta Terra, ou melhor, do universo!!! Acredito que se algum astronauta fizesse um pedido na lua, esse pedido seria prontamente atendido, entregadores de pizza vão aonde for preciso! Muitas vezes eles se perdem e demoram a chegar, mas chegam mesmo que duas horas depois, mesmo que a sua fome já tenha passado, mesmo que o mundo se acabe, eles chegam! Esses recalcitrantes entregadores de pizza. Eles escolhem algum caminho que nós, meros mortais, nunca saberemos qual é, eles seguem pelo submundo das ruas vicinais, conhecem caminhos inimagináveis, habitam o mais profundo do inconsciente coletivo, e assim traçam caminhos ilógicos para a nossa simples razão de consumidor. Um amigo no tempo que levou para a pizza chegar descobriu que a esposa o estava traindo e ia abandona-lo, o coitado perdeu a esposa e o advogado, essa pizza foi um prato que ele teve de comer frio.
 Foi assim que, do nada, o entregador de pizzas chegou na sala de testes, ele apareceu dentro do acelerador de partículas, deixou a pizza de quatro queijos, por sinal, recebeu o dinheiro e foi embora seguindo rumos que a razão dúvida.

Enjambement desambientado (4)



 “Fímbria da consciência”

Nesse momento estava em pé na escuridão, minha vista foi se acostumando a falta de luz, senti frio, pude ver cruzes entre a neblina, percebi que estava dentro de um cemitério, ouvi passos atrás de mim, havia uma pessoa com um capuz, não pude identificar seu rosto, mas ela segurava um candelabro, ou algo do tipo, havia luz.
-Você esta assustado? –Era voz de homem.
-Olha, -respondi calmamente, -meus últimos dias não tem sido fáceis, então já nem estou mais me assustando muito, meu único problema na verdade é que pelo andar da carruagem ou estou enlouquecendo ou morri. Na verdade não sei dizer sobre minhas sensações me sinto o reflexo de minha educação, mas aparentemente são tantas incoerências acontecendo que não estou tendo muito parâmetro. O que quero saber é sobre o fato de que não consigo diferenciar o que é sonho do que é realidade, você pode me responder isso?
-Bom, posso tentar: amor, ódio, medos, preconceitos que trazemos conosco, são embutidos em nós. Por pais, parentes, amigos, televisão, livros, a sociedade toda! Existem coisas boas e más nisso tudo que é embutido em nossa personalidade. Não se pode ser dominado por essas sensações, e não é prudente se guiar apenas pelo que os outros dizem, o certo (ou mais plausível) é tentar conhecer a si mesmo, senão paga-se o preço, o discernimento é a melhor alternativa, não é a mais fácil, mas a mais honesta.
-Sim mais o fato em si a que me refiro é muito mais complexo.
-Nossas atitudes conscientes geralmente são muito complexas, pois não se pode captar tudo de uma só vez; algumas atitudes corretas e outras alucinadamente impróprias. A vida também não se mantém imóvel: atitudes convenientes no passado podem, no presente, se mostrar inadequadas.
-Quem dizer quem eu tenho que formar minha opinião e ela não é necessariamente imutável?
-Sim, nesse momento é essa a correta interpretação. Crescer não é fácil!
-Onde estamos, afinal? Isso tudo é um sonho?
-O sonho...não pode produzir um pensamento definido, a  menos que deixe de ser um sonho...O sonho...manifesta a fímbria da consciência, (parafraseando Jung) como o pálido lampejo das estrelas durante um eclipse total do sol. Uma vez que o sonhos existem no limiar entre o campo da consciência e o inconsciente, assim que registramos nosso sonho e interagimos com ele, começa a se formar uma ponte entre os dois reino. Quanto mais rápido o acesso consciente –inconsciente, mais se aceleram o crescimento e a mudança. Esse cenário que estamos pode ser apenas a forma que o seu inconsciente encontrou de lhe dizer o que precisa.
-Sim, mas o que você acabou de falar é um pensamento definido, teoricamente eu deveria acordar.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

6000 km depois (Parte 3-Final)


Eu, o Marcos, o Alex, o Jone e o... tinha mais uma pessoa que não me lembro o nome, estávamos conversando e falei a respeito de morar em um lugar distante dos grandes centros, “mais para o oeste, cê ta me entendendo?”, nas implicações disso, e em como não conseguiria responder a simples questionamentos contrários a essa ideia, como já escrevi anteriormente;  “E se você precisar ir para o hospital? E se quiser sair (pra balada) e tudo o mais”, eles entenderam e falaram um pouco a respeito de morar “mais a oeste”, o Alex é de São Paulo e estava morando na região a um ano, e o Jone e o outro rapaz são nascidos la mesmo e sempre moraram por ali, já o Marcos também achou uma ideia boa, mas também não teve respostas satisfatórias para as perguntas em contrário,  conversamos também sobre a vida e como ela é uma viagem “transcendental” também, transcendemos a matéria pelo pensamento e esse tipo de papo de quem já havia bebido boas doses de álcool.Pensamos também sobre o que é inteligência, afinal? Pois se percebe que existem pessoas com uma “Inteligência matemática”, por assim dizer, eles são bons com números, são mais práticos, pragmáticos, é algo que obviamente vai render mais dinheiro. A pessoa se encaixa em alguma carreira, algum curso de engenharia e é mais promissor em termos de possibilidade de ganhar dinheiro. É um tipo de dom mais valorizado na sociedade atual. Existe também um tipo de “Inteligência emocional” a pessoa tem mais facilidade em relacionar-se com o meio e as pessoas com quem convive.
É claro que apenas estávamos generalizando e também talvez essa tenha sido meio que uma conversa de bêbado, mas concluímos que é óbvio que as coisas não são tão simples assim, embora faça certo sentido.
No fim decidimos, para fechar a conta, que a vida simples de um camponês qualquer, perdido em algum rincão do Brasil, que chega todo sujo de terra à tardezinha em casa e sente o cheiro do jantar que a esposa está preparando pode ser mais cheia de felicidade que a vida nos grandes centros urbanos toda burocrática, cheia de tanta tecnologia, código de barra coisa e tal, o lance é buscar a simplicidade, ou não?
Cultivar a sua horta e ficar em paz, assim como a personagem do livro do Voltaire, “Cândido” é o mais correto? Pode ser que sim. Viver satisfatoriamente em comunidade sendo essa comunidade uma grande ou pequena cidade, uma vila, uma ilha, uma tribo, uma casa é muito importante, é uma arte, respeitar os outros, respeitar o planeta.
O comportamento humano, tradicionalmente é predador, imediatista, favorável ao desenvolvimento a qualquer custo, para não dizer comportamento individualista e egoísta, é a causa mais importante da crise ambiental em que nos envolvemos e essa crise é no final das contas reflexo de uma vida em sociedade onde as relações são no mínimo equivocadas.
É essa coisa de querer se dar bem em tudo! E não digo isto apenas em grandes âmbitos políticos, isso começa conosco mesmo. Por exemplo, que problema poderá causar uma ponta de cigarro jogada em uma estrada deserta? “Claro que nenhum”, parece ser a resposta mais natural, apesar do sem número de inofensivas pontas de cigarro que já causaram incêndios em grandes extensões de mata.
E, com esse mesmo esquema lógico, argumentaria o industrial: “Uma chaminé a mais a poluir, uma a menos, que mal poderá trazer para o ar do nosso bairro e para os seus moradores?”.
Vimos uma castanheira antiga “pra caramba” no caminho para o aeroporto, mas infelizmente não tiramos foto, e o taxista que nos levou era gente boa demais e nos falou um pouco a respeito de Igarapés, da rodovia transpacífico, e foi isso, pegamos o avião, descemos em Campinas, e voltamos de carro para Piracicaba.
Sempre que se aproveita a viagem você muda, e quando se volta tudo está mais ou menos do mesmo jeito (A não ser que a sua viagem seja à velocidade da luz, só que aí é outra história), mas você mudou, você aprendeu mais, você cresceu, e não se sabe ao certo como, e não se sabe ao certo nem o que se aprendeu, mas por mais que pareça pouco, na verdade não dá para saber se foi mesmo, acho que isso ficou um pouco confuso, mas vou esclarecer com algo que li em um livro: é como dizia Kerouac, “a vida é uma série regular de desvios” dos nossos objetivos. Quando alguém é desviado de um objetivo, explica Kerouac, ele ou ela estabelece um novo objetivo da qual será também igualmente desviado. Esta série de desvios não assume o padrão de um navio que segue o sopro do vento, movendo-se sempre em frente; em vez disso esses desvios são como uma série de voltas a direita que continua até que façamos um círculo completo que circunscreva uma “coisa desconhecida” que seja “central para a existência”. As tentativas de evitar, o que ele chama de Círculo do Desespero terminarão em fracasso, porque “a linha reta levará somente à morte”.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Enjambement desambientado (3)


“Era uma vez...não havia nada, não havia relógios, não havia solidão, não havia tempo, não existiam proteína e carboidrato, não havia espaço, nem mesmo hora do almoço, não havia “era uma vez”... não "era" nada do que viria a ser.
Então fez-se o espaço-tempo, mas éramos crianças, se bem que nós provavelmente nem éramos, até 4,5 bilhões de anos atrás surgirmos, como um todo completo e improvável. E foi longe, e cheio de curvas, esse caminho, levou longe, além do desconhecido; mas em alguns momentos de súbita e trabalhosa lucidez conseguimos ver ordem no caos, no cosmos, e para traduzir as surpreendentes estruturas do universo criamos abstrações, sistemas de interpretação, nossas palavras, letras e números, maneiras de ler o todo, tentar encontrar Deus quem sabe.
E nossas abstrações, nossa cultura, são o reflexo de tudo o que nos constitui, são o alicerce da humanidade, são mais do que essas tentativas de definição que cabem em minhas palavras.”
            Agora eu estava sentado em uma carteira dentro de uma sala de aula, e o professor falando da Teoria do Big Bang ou algo assim. Não era possível, alguma coisa estava fora de controle. Alice caindo pelo buraco sem fundo, só faz cair e cair e da tempo até de divagar de tão fundo que é o buraco. Como se Dom Quixote liberto de Cervantes estivesse descobrindo os moinhos reais por ai, como naquela música do Alceu Valença: “Agalopado”.
            “Humildes de todas as épocas, na penumbra da manhã, olhando as estrelas, o sol nascente...” o professor não parava sua explicação.
            Alguém levantou a mão do outro lado da sala.
            “Mas, professor, não estou entendendo essa sua linha de raciocínio.” perguntou o aluno.
            “Estou tentando demonstrar por meio de estruturas básicas para ser possível entender o que quero dizer.” prosseguiu o professor “Em todas as sociedades humanas que já existiram é possível visualizar essa imagem, ‘na penumbra da manhã, olhando as estrelas, o sol nascente’”.
            “Entendo” respondeu o aluno.
Então o professor naquele anfiteatro com umas cem pessoas olhou-me e disse:
            “Volte-se para a busca filosófica”, empalideci e ele continuou ”Nosso ponto de partida deve ser duvidar de tudo” ele então se voltou para o resto da sala, abriu um livro que estava em suas mãos,”Quando penso com cuidado no tema, não encontro uma única característica capaz de marcar a diferença entre o estado acordado e o sonho’, escreve Descartes. E prossegue:’ Tanto eles se parecem, que fico completamente perplexo e não sei se estou sonhando neste momento”.
            Percebi então que segurava em minhas mãos o mesmo livro que o professor lia nesse momento, “O mundo de Sofia”.
            “Jeppe Vom Berge também acreditava ter sonhado que dormira na cama de um barão.”
            “E quando estava na cama do Barão achava que sua vida como pobre camponês não passava de um sonho”. “É por isso que Descartes acabava duvidando de tudo.”

terça-feira, 12 de junho de 2012

Enjambement desambientado (2)


                             
As velhas gargantas úmidas de uísque me dizendo que está próximo o dia de minha morte...São pessoas a volta da minha cama, a moça que disse ser minha filha chora e(...) é engraçado, essas pessoas que vieram para, aparentemente, visitar-me são parentes que a muito tempo não via, pessoas que na última vez que vi nem queriam estar perto de mim, vieram assistir de camarote o meu triste fim e é um saco pois não faço ideia do que esta acontecendo.
Ah, que pena estar assim por baixo diante de pessoas que acreditam poder dar respostas para as simples perguntas que me fazia em voz alta às vezes, agora possivelmente vão ficar com a idiota impressão de que elas sempre estiveram certas e eu errado e agora estou sendo punido. São todos uns babacas.
“-Você já leu o livro da vida? Quanto tempo ele tem? O que os seus instintos podem saber?” já pensei em tantas respostas para eles, mas nunca tive coragem de dizer, sempre me pareceram resposta grosseiras demais.
Caio em um tipo de sonho, novamente, onde estou sozinho em uma estrada, o sol do meio-dia, as roupas estão em farrapos. Mas, estranhamente, estou bem, lanço um sorriso para o futuro incerto, agora não há mais volta. Estou no controle da situação. Uma música toca suavemente em meus pensamentos. O medo e as decepções simplesmente se dissiparam. Estou caminhando sozinho e o sol é de rachar. Fazia muito tempo que eu não me sentia tão bem. Lembranças me ocorrem abruptamente, estou na cama me remoendo em ódio, raiva, nervosismo todo um circulo vicioso e doentio, arrastando velhas amarguras comigo, e de repente como se em um minuto tivesse aprendido o equivalente há 100 anos, percebo que essas mesquinharias não servem de nada, só estavam atrasando minha vida, estou curado dessa doença que é o rancor, o lance todo no fim das contas é a gente se ajudar o máximo que puder,como naquela música do Bill Withers, chamada Lean on me, é tão simples. O problema é que agora não sei o que é sonho e o que é realidade.