O professor entrou na sala de aula, naquela manhã de 21 de fevereiro de 2000, era o primeiro dia de aula, e começava com o curso de filosofia, eu estava sentado na primeira carteira da primeira fila da sala, o professor colocou sua maleta na mesa, apontou o dedo na minha direção e perguntou inquisidor:
-Você é feliz?
-Humm...-respondi eu do alto dos meus 17 anos.
-Você não é feliz! – Ele me disse criando um certo ambiente de sensacionalismo na sala de aula “-Se você fosse feliz nem pensaria para responder.”-pronto. A sala estava completamente dominada.
É óbvio que ele não estava, necessariamente, se importando com a minha resposta, a intenção era causar o espanto na turma toda, e começar uma discussão dos assuntos que seriam abordados. E eu acredito que a educação para funcionar verdadeiramente, necessita dessa postura do professor, de criar o interesse nos alunos, de instigar.
O professor em questão é daqueles tipos que influenciam o estudante. Que está mais preocupado em despertar o interesse, a curiosidade, é do tipo de pessoa que não se esquece. Espero conseguir me transformar em uma pessoa assim.
A turma era boa e o meu grupo de amigos excelente, composto por mim, a Silvana, o Anderson, Fernando, a Monique, o Paulo e um outro rapaz que não me lembro o nome, sei que chegamos até a desenvolver algumas teorias filosóficas, só que me recordo apenas de uma das conclusões que chegamos: “o nada é uma coisa que existe porque não existe”. Sim, são coisas de adolescência, mas o interessante é justamente isso! O professor ter transformado o assunto (a filosofia) em algo surpreendente na visão da classe, e assim nos dar a chance de despertar para um mundo mais intelectualmente profundo e rico de sentido, é uma coisa boa esse “despertar” é uma sensação que revigora e assusta em certo sentido, é a ideia de um filme de 2001, o “Waking Life”.
Várias das coisas que eram ditas em sala eu tenho anotado até hoje, o problema é que pessoas assim parece que não ficam por muito tempo no nosso caminho, e ele deu aula para minha turma por uns 5 meses, e o professor efetivo voltou, bem medíocre por sinal.
Bom, aqui vão as anotações que tenho:
“-Um bom exemplo vale mais que mil palavras.”
“-Houve um dia em que eu acreditei em palavras hoje eu acredito em ação.”
“-Você precisa acordar mais cedo e dormir mais tarde.”
“-Não se entra duas vezes no mesmo rio.”
“-O que fica nas margens do rio é tranqueira, temos que conseguir chegar no centro, que é mais difícil, mas vale a pena. Na beira só ficam os fracos, no centro do rio os fortes.”
“-Um forte vale por um milhão de fracos.”
“-Os olhos são a janela da alma.”
“-Temos que pensar, falar e agir da mesma maneira.”
“-É preciso saber o que se quer da vida senão seremos lixo, sendo sempre o que os outro querem.”
“-As pessoas só querem saber de si próprias, nunca pensam em ajudar se não forem ter algum benefício.”
“-Eu existo, e se tiver de provar alguma coisa para alguém é só para mim. Não importa o que pensem a meu respeito, o que importa é o que eu penso a meu respeito.”
“Um rio muda constantemente. Isto não significa, porém, que você não possa falar sobre esse rio. Só que você não pode perguntar em que ponto do vale o rio é o rio mais “verdadeiro”.
“-A mente é muito forte. O pensamento é matéria.”
Pois é, haviam muitas frases soltas anotadas e talvez aqui elas não signifiquem nada, mas o professor como um músico ordenava as notas e compunha em sala de aula uma bela canção, era uma piração, de repente sair de um mundo que era aparentemente ordenado e perceber que na verdade tudo pode e deve ser questionado, que a vida é muita mais oblíqua. É claro que com o tempo descobri nessas frases soltas vários trechos de livros, por exemplo “O mundo de Sofia”; “O pequeno Príncipe” entre outros, e frases de filósofos como Heráclito, mas em minha concepção isso demonstra a preocupação intelectual de permear o discurso o tornando interessante e profundo com toda a bagagem adquirida na própria vida, e não só reproduzir o que está imposto no currículo ou em algum livro didático, até porque se fosse só isso não seriam necessários os professores. Com o tempo fui me aprofundando nesses conceitos filosóficos, pelo menos um pouco mais. E tudo que sei é que estou muito longe de saber o suficiente, cheguei a conclusão de que uma vida é pouco para o tanto que se pode saber, mas acho que é ai que mora a graça de tudo, nessa trilha que se percorre, aproveitar o que se vive sem se preocupar necessariamente o com início ou fim.
Nas aulas ele explicava também a respeito de como se deve viver a vida de uma forma “Filosófica”, e o que é preciso ter em mente para avaliar as situações que surgem:
Filosofia = Analisar/Refletir/Pensar
E tem esse texto aqui, que com um papo de nascer pela segunda vez chega a lembra o Neo do filme “Matrix” tendo que escolher entre duas pílulas, bem bacana, não sei de quem é a autoria:
Como vai sua vida?
O comportamento do homem atual atesta sua pobreza de conhecimento em relação ao fator vida. Assim, passa o homem moderno a vida inteira morrendo e, no final, fica com medo da morte.
Será que as pessoas não entendem que para viver é necessário primeiro ter nascido? Será que as pessoas não entendem que quem está morto não tem condições de falar em vida?
O despertar da vida é feito com o despertar da mente que, usando a sua virtude, a meditação, faz com que o homem perceba que está vivo, como parte integrante da vida.
Neste dia, verifica-se o segundo parto de um ser.
Você já nasceu pela segunda vez? Parabéns?
Bom, e no último dia de aula que ele ministrou para turma ele deixou essas perguntinhas bem simples:
Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou se é que eu vou? O que vim fazer?
21/02/00
