sábado, 24 de março de 2012

Frases soltas das aulas de filosofia

O professor entrou na sala de aula, naquela manhã de 21 de fevereiro de 2000, era o primeiro dia de aula, e começava com o curso de filosofia, eu estava sentado na primeira carteira da primeira fila da sala, o professor colocou sua maleta na mesa, apontou o dedo na minha direção e perguntou inquisidor:

-Você é feliz?

-Humm...-respondi eu do alto dos meus 17 anos.

-Você não é feliz! – Ele me disse criando um certo ambiente de sensacionalismo na sala de aula “-Se você fosse feliz nem pensaria para responder.”-pronto. A sala estava completamente dominada.

É óbvio que ele não estava, necessariamente, se importando com a minha resposta, a intenção era causar o espanto na turma toda, e começar uma discussão dos assuntos que seriam abordados. E eu acredito que a educação para funcionar verdadeiramente, necessita dessa postura do professor, de criar o interesse nos alunos, de instigar.

O professor em questão é daqueles tipos que influenciam o estudante. Que está mais preocupado em despertar o interesse, a curiosidade, é do tipo de pessoa que não se esquece. Espero conseguir me transformar em uma pessoa assim.

A turma era boa e o meu grupo de amigos excelente, composto por mim, a Silvana, o Anderson, Fernando, a Monique, o Paulo e um outro rapaz que não me lembro o nome, sei que chegamos até a desenvolver algumas teorias filosóficas, só que me recordo apenas de uma das conclusões que chegamos: “o nada é uma coisa que existe porque não existe”. Sim, são coisas de adolescência, mas o interessante é justamente isso! O professor ter transformado o assunto (a filosofia) em algo surpreendente na visão da classe, e assim nos dar a chance de despertar para um mundo mais intelectualmente profundo e rico de sentido, é uma coisa boa esse “despertar” é uma sensação que revigora e assusta em certo sentido, é a ideia de um filme de 2001, o “Waking Life”.

Várias das coisas que eram ditas em sala eu tenho anotado até hoje, o problema é que pessoas assim parece que não ficam por muito tempo no nosso caminho, e ele deu aula para minha turma por uns 5 meses, e o professor efetivo voltou, bem medíocre por sinal.

Bom, aqui vão as anotações que tenho:

“-Um bom exemplo vale mais que mil palavras.”

“-Houve um dia em que eu acreditei em palavras hoje eu acredito em ação.”

“-Você precisa acordar mais cedo e dormir mais tarde.”

“-Não se entra duas vezes no mesmo rio.”

“-O que fica nas margens do rio é tranqueira, temos que conseguir chegar no centro, que é mais difícil, mas vale a pena. Na beira só ficam os fracos, no centro do rio os fortes.”

“-Um forte vale por um milhão de fracos.”

“-Os olhos são a janela da alma.”

“-Temos que pensar, falar e agir da mesma maneira.”

“-É preciso saber o que se quer da vida senão seremos lixo, sendo sempre o que os outro querem.”

“-As pessoas só querem saber de si próprias, nunca pensam em ajudar se não forem ter algum benefício.”

“-Eu existo, e se tiver de provar alguma coisa para alguém é só para mim. Não importa o que pensem a meu respeito, o que importa é o que eu penso a meu respeito.”

“Um rio muda constantemente. Isto não significa, porém, que você não possa falar sobre esse rio. Só que você não pode perguntar em que ponto do vale o rio é o rio mais “verdadeiro”.

“-A mente é muito forte. O pensamento é matéria.”

Pois é, haviam muitas frases soltas anotadas e talvez aqui elas não signifiquem nada, mas o professor como um músico ordenava as notas e compunha em sala de aula uma bela canção, era uma piração, de repente sair de um mundo que era aparentemente ordenado e perceber que na verdade tudo pode e deve ser questionado, que a vida é muita mais oblíqua. É claro que com o tempo descobri nessas frases soltas vários trechos de livros, por exemplo “O mundo de Sofia”; “O pequeno Príncipe” entre outros, e frases de filósofos como Heráclito, mas em minha concepção isso demonstra a preocupação intelectual de permear o discurso o tornando interessante e profundo com toda a bagagem adquirida na própria vida, e não só reproduzir o que está imposto no currículo ou em algum livro didático, até porque se fosse só isso não seriam necessários os professores. Com o tempo fui me aprofundando nesses conceitos filosóficos, pelo menos um pouco mais. E tudo que sei é que estou muito longe de saber o suficiente, cheguei a conclusão de que uma vida é pouco para o tanto que se pode saber, mas acho que é ai que mora a graça de tudo, nessa trilha que se percorre, aproveitar o que se vive sem se preocupar necessariamente o com início ou fim.

Nas aulas ele explicava também a respeito de como se deve viver a vida de uma forma “Filosófica”, e o que é preciso ter em mente para avaliar as situações que surgem:

Filosofia = Analisar/Refletir/Pensar


E tem esse texto aqui, que com um papo de nascer pela segunda vez chega a lembra o Neo do filme “Matrix” tendo que escolher entre duas pílulas, bem bacana, não sei de quem é a autoria:

Como vai sua vida?

O comportamento do homem atual atesta sua pobreza de conhecimento em relação ao fator vida. Assim, passa o homem moderno a vida inteira morrendo e, no final, fica com medo da morte.

Será que as pessoas não entendem que para viver é necessário primeiro ter nascido? Será que as pessoas não entendem que quem está morto não tem condições de falar em vida?

O despertar da vida é feito com o despertar da mente que, usando a sua virtude, a meditação, faz com que o homem perceba que está vivo, como parte integrante da vida.

Neste dia, verifica-se o segundo parto de um ser.

Você já nasceu pela segunda vez? Parabéns?

Bom, e no último dia de aula que ele ministrou para turma ele deixou essas perguntinhas bem simples:

Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou se é que eu vou? O que vim fazer?

21/02/00

sábado, 3 de março de 2012

6000 km depois (Parte 1)

Piracicaba, 5 horas da manhã. Dia 09 de janeiro de 2012.

Acordo antes do despertador tocar, isso tem acontecido com relativa freqüência ultimamente, parece que meu sono não é mais o mesmo. Me arrumo, pego a mala e vou mecanicamente até o carro, vou fazer uma viagem a trabalho para o Estado de Rondônia, numa Usina na cidade de Santa Luzia do Oeste, que está a uns 500 km da Capital Porto Velho, está muito cedo e estou com frio. Chego à casa do patrão, o João, ás 05h30min, ligo pro celular dele, ele atende e reclama que está muito cedo, e me diz que me esperava la pelas 6. Seguimos então pra casa do outro patrão, o Estevam, e então direto para o aeroporto, Viracopos. Chegamos ao destino quase que junto com o outro carro da empresa, nele vem o Marcos, o Rodinei e o Weber de motorista. O João e o Weber vão embora, nós ficamos e vamos direto fazer o Check-in para poder despachar logo as malas que trouxemos. Check-in feito tomamos o café, esperamos o horário do vôo, que foi às 8 horas, foi a primeira vez que o Marcos andou de avião, o que gerou uma cena muito hilária na hora da decolagem pois ele se agarrou desesperadamente ao banco, e deu pra perceber que ele dava risada para disfarçar o nervosismo. Bom, cinco minutos depois da decolagem o Rodinei já estava tirando fotos da paisagem, a de cima e a de baixo, temos um monte de fotos de nuvens.

Nuvens, muitas nuvens, mas ainda bem que chegando em Cuiabá deu para ver a Chapada dos Guimarães

O vôo foi muito tranqüilo (Pra sorte do Marcos) e chegamos em Cuiabá 10:30, lá tem uma hora de diferença em relação ao horário de Brasília, a chegada ainda voando foi muito boa , pudemos ver a Chapada dos Guimarães, paisagem que tem contornos mitológicos na minha cabeça pois é um dos lugares que desde sempre penso em conhecer, não foi dessa vez ainda, mas vê-la mesmo que de longe foi muito bom.

Chegando a Cuiabá o Estevam fez comentários a respeito da estrutura do aeroporto e quanto ele precisa ser melhorado pra Copa do mundo. Eu da minha parte estou pouco me lixando pra Copa, tô mais preocupado com os custos que ela vai gerar no meu bolso, afinal já estou achando que temos que pagar impostos demais, chega a dar uma sensação de sufoco e impossibilidade de conquistas, já não tenho dinheiro pra nada do jeito que as coisas estão, imagina então tendo que bancar impostos pra essa porcaria de copa.

Tivemos que esperar umas 3 horas pra pegar o avião que nos levaria a Ji-paraná. Bastante tempo pra conversar e pouco assunto. Encontramos nesse meio tempo o rapaz (Alex) da usina que iria nos acompanhar até o alojamento que ficaríamos. O vôo atrasou e ficamos sem almoçar. Chegou então a hora do embarque depois dessa longa espera, eu estava meio preocupado com qual avião iríamos ir, pois o Estevam havia falado que era um dos pequenos, eu já me vi dentro de um Teco-teco daqueles de filmes do Indiana Jones que chacoalham mais que carro em estrada cheia de buracos, já estava imaginando que o avião iria cair e seriam poucos ou nenhum sobrevivente, é claro que todas essas preocupações fiz questão de compartilhar com o Marcos, que já estava “super tranqüilo”, e ele ria nervoso. Bom o avião pequeno no fim das contas foi até mais agradável e não tinha nada daquilo que eu havia imaginado.

-Bom, não parece avião de filme do Indiana Jones.

-Ufa!

E nesse vôo tivemos outro momento singular, sobrevoamos quilômetros e quilômetros de floresta amazônica, estamos na borda da floresta, por assim dizer. Fala-se muito em ambiente, na floresta e tudo mais, mas na hora que você a vê, nossa! É impressionante, é a natureza de uma forma que eu nunca havia visto, é tão grandiosa e imponente, que não existem palavras pra descrever, e olha que a vi muito do alto, e já fiquei impressionado com a força que a visão da floresta proporciona.

Chegamos em Ji-paraná já eram umas 4 horas da tarde, a fome era tanta que até passou.

Chegada no aeroporto de Ji-paraná.

No aeroporto havia dois táxis nos esperando, o Rodinei e o Marcos foram em um deles, eu o Estevam e o Alex fomos em outro que nos levou até um hotel em Ji-paraná mesmo, la havia um carro da Usina e nós três seguimos viagem nele, o outro táxi continuou, a Usina estava a uns 170 km da cidade em que nos encontrávamos, ou seja, fomos chegar ao alojamento já eram 6 da tarde. Estávamos imaginando esse alojamento como se fosse um hotel, que tivesse toalha, travesseiro, lençóis coisas assim, ledo engano. Demos azar que não tinha nem água no dia que chegamos, foi uma pena, tivemos que ir pra um hotel na cidade mais próxima chamada São Felipe do Oeste, digo que foi uma pena, pois seria uma situação diferente, esse alojamento é em uma fazenda e tem animais sendo criados soltos, como porcos e galinhas e um rapaz que veio nos receber assim que chegamos, o Jone, disse que teve uma noite que apareceu por la uma onça! Imagine só, uma onça! Já imaginei aquelas estórias de gibi do Chico Bento com uma carabina no meio da mata.

Bom, pegamos o carro e fomos então para a cidade, que por sinal é pequena não chega 5.000 habitantes, mas uma cidade muito acolhedora, não pudemos aproveitar para conhecê-la melhor, pois primeiro estávamos sem carro e segundo pense num lugar que chove muito, puts choveu! Era até esperado, pois é a época das chuvas e de 3 a 4 meses chove direto mesmo.

Almoçamos/jantamos no hotel mesmo eram 8 da noite, o fuso é de 2 horas menos, ou seja se comemos às 8 de la, na verdade fizemos a refeição às 22 do horário de Brasília. Como diria um colega do trabalho, o Paulo, com uma entonação de espanto, “Mamãe!”.

Almoçamos/jantamos e depois aproveitamos o intervalo de cinco minutos sem chuva pra dar uma volta no quarteirão, pra conhecer alguma coisa, só deu tempo da volta mesmo e tivemos que voltar devido à chuva, o chuveiro estava com problema e a água era gelada para o banho, mas por mim estava de boa, já o Rodinei e o Marcos se incomodaram, pois é, tivemos que ficar os três no mesmo quarto (Com 3 camas de diferentes tamanhos por sinal), vida de peão não é fácil, bom, mas voltando ao chuveiro, no outro dia os dois pediram pra arrumar, no que não foram atendidos, e então a recepcionista nos colocou em outros quartos.

No outro dia acordei e olhei no celular para ver que horas eram, eram seis e meia, levantei rápido, pois estavamos perdendo hora, me arrumei pra ir tomar o café, acordei o pessoal, a gente tinha combinado de a essa hora ir pra Usina, o Alex viria nos buscar de carro, estávamos a uns 20 quilômetros da Usina. Só então me lembrei que não havia acertado meu relógio para o horário local, ainda eram 4:30 da manhã. Ops! O pessoal depois disso reclamou todo o resto da semana pra eu arrumar "a droga" do meu relógio, o que obviamente não fiz.

No fim todo mundo dormiu de novo e acordados na hora certa agora, tomamos o café da manhã e seguimos pra usina, numa das estradas, quase chegando lá, havia criação de gado e eles ficavam soltos e alguns ficavam na estrada, e esse trecho do caminho era estrada de terra e o carrinho até que foi bem, porque tinha barro, muito barro e ele não atolou nem nada.

O trabalho na Usina, era um serviço de Integridade na Caldeira, o pessoal que nos ajudou na execução do serviço foi de primeira qualidade, pessoal disposto a colaborar com o bom desenvolvimento do trabalho, gente de bem, fácil de fazer amizade.

Caldeira que fizemos o serviço.