domingo, 15 de abril de 2012

6000 km depois (Parte 2)


Nessa viagem vimos montes de pés de Babaçu que é uma palmeira de área seca e pés de Buriti que são palmeiras de áreas alagadas.
Era engraçado que para chegar ao refeitório da Usina havia um pássaro (Quero-quero) e ele fez seu ninho bem no meio caminho, então na hora de almoço tinha-se que tomar cuidado com o Quero-quero que dava uns vôos rasantes mirando a cabeça de quem passava. Protegendo assim seu ninho, isso me fez pensar no ciclo da vida e em suas ramificações, minha avó havia morrido no dia 05 de janeiro, alguns dias antes dessa viagem, é algo tão estranho perder alguém próximo... De repente a pessoa se foi!  Como se lida com isso? Como se lida com a morte? Poxa estamos vivendo e não sabemos lidar direito com a vida, imagine com a morte. No fim, fica parecendo que todos os sentidos que encontramos são tão tênues e fáceis de perder no tempo... Essa avó que faleceu foi muito importante na minha infância, significou para o bem e para o mal muito pra mim, preciso explicar esse para o bem e para o mal antes que seja mal interpretado, seria fácil, da minha parte, escrever uma coisinha bonitinha e boa, mas, peraí! A vida não é isso; “uma coisinha bonitinha”. Todo mundo tem lados bons e luminosos e lados pouco menos coerentes e escuros por assim dizer, e quando você interage com uma pessoa é tudo ao mesmo tempo, e nisso reside toda riqueza da história. Durante momentos de pausa ficava pensando sobre esse assunto, tentando extrair alguma explicação que fosse para esses momentos da vida.
              
                                                     Caminho até o refeitório.

Bom, mas voltando ao assunto da “hora do almoço”, havia um Tatu que ia à lateral do refeitório em um local onde as cozinheiras colocavam restos de comida e ele ia comer, e ficava bem de boa por la. Perguntei para o pessoal da usina, devido a proximidade com a floresta, se não apareciam onças por ali e se não era perigoso elas atacarem, no geral a resposta que tive foi a de que na mata tem muita Paca,  Porco do Mato e outras iguarias muito mais apetitosas do que o ser Humano.
Conversei bastante com um rapaz que estava me ajudando no trabalho e perguntei o que ele fazia antes de trabalhar na usina, me respondeu que como a maioria das pessoas trabalhava em uma fazenda; disse-me também que tem alguns alqueires de terra, que em 70% ele pode ter a sua lavoura, cultivar algumas coisas pra sustento familiar, ficam assim 30% de mata preservada; perguntei se ele se aventurava pelo meio dessas matas na sua “terra”; ele disse que sim, pois tinha algum conhecimento, mas que matas que não conhece não tem coragem de se arriscar. E o que ele mais gosta de fazer, em termos de lazer é pescar. Por sinal isso era bem evidente mesmo, pois várias vezes quando vinha alguém conversar era pra falar sobre alguma pescaria. Interessante que muito do que sua família consome vem da sua horta, da sua lavoura, do galinheiro que também possui, do chiqueiro. Por exemplo o café que consomem, são eles mesmos que plantam, colhem, secam, tiram a casca, assam e moem, eu com a minha mentalidade cinza urbana/industrial achei isso incrível. Viver com o que você mesmo cultiva, acredito que eu gostaria de viver assim, ir embora para o oeste onde a vida é mais tranquila, mais pacata, mais “natural”, cozinhar a comida "num luxuoso fogão à lenha" como é cantado em uma música, da minha parte acho isso o máximo, é óbvio que tudo tem os dois lados e alguém vai me dizer; "E se você precisar ir para o hospital? E se você quiser sair e tudo o mais?". E eu não sei o que responder...
Estava fazendo um calor danado onde estávamos e o Marcos então perguntou “Por que, por que tanto calor?” Eu que fiz Licenciatura em Geografia me vi na obrigação de responder :
“Bom nas áreas próximas à linha do equador, que como você sabe é aquela linha que divide a Terra pela metade, no caso norte e sul; então nas áreas próximas à linha do equador,  ou seja, de baixa latitude, a temperatura é maior pois os raios solares incidem mais perpendicularmente sobre a superfície terrestre causando um maior aquecimento nessas regiões. Isso faz com que, obviamente, essas regiões apresentem climas mais quentes. Em lugares mais distantes da linha do equador os raios solares incidem de forma mais inclinada, isso provoca menor aquecimento nessas regiões.”
Como já que entrei nesse assunto gostaria de falar a respeito de uma pergunta que um colega do trabalho, o Tiago, me fez, e era a seguinte: “Por que se a gente subir onde passam os aviões é mais frio se estamos mais perto do sol?”, achei legal essa pergunta, pois ela é bem simples e direta e só assim se aprende de verdade, com uma curiosidade em estado puro. A resposta é a seguinte: os raios solares aquecem a atmosfera através das radiações refletidas pela Terra, ou seja o que aquece é a reflexão. Ocorre uma diminuição de 1°C na temperatura para cada 200 m de altitude.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O astronauta lunático


“Era um dia triste. O ano todo foi triste. A vida havia deixado de ter aquele ânimo.” Eram os pensamentos daquele solitário rapaz, “Acho até que choraria se houvessem lágrimas para tal expressão de sentimentos”, na verdade não estava triste e sim apático, não expressava sentimento algum, não se podia dizer que fosse uma pessoa fria, pois isso de certa forma implica em uma demonstração de expressão, não era o caso.
Ele estava só, naquele compartimento escuro, um caixão metálico altamente equipado, com o ápice tecnológico que a espécie humana desenvolveu, mas estava sozinho, com as luzes apagadas, incapaz de reagir contra o terrível destino que se aproximava.
Pensava em toda a vida que havia deixado para trás, em todo o orgulho que sentira ao ser o escolhido para aquela que foi denominada a maior “odisséia” que um ser humano poderia viver. Na época lhe disseram que tal aventura estava no limiar da história, o compararam a Cristóvão Colombo e a um monte de outros famigerados nomes geradores de história. “Ah, o orgulho” murmurou ensimesmado, foi tratado como um herói e gostou muito desse sabor, desse gostinho de ser alguém que tem o seu nome lembrado geração após geração em meio a todos os outros que serão esquecidos como pegadas na areia, os “construtores de pirâmides”, vivendo seus míseros dramas em um ínfimo espaço de tempo e território  “Que tolice a minha...” agora na escuridão, na solidão, seus pensamentos seguiam um rumo inesperado, “Seu nome será gravado na história!” alguém lhe disse, seu nome não importava mais! Seu status, seu orgulho, preferia ter alguém para conversar alguma banalidade ou jogar xadrez, apenas isso; “Será querer demais?” ele não se conformava, a nave espacial se aprofundava nas regiões mais longínquas do universo, e sua imaginação estava descontrolada, parece que sua mente, assim como a nave estava girando em círculos e sempre recomeçando e recomeçando! Apesar de toda a inexpressividade externa, sua mente borbulhava com paixão, estava sonhando feito um adolescente, mas não saudavelmente, percebeu esse detalhe, “Estou caminhando para o caos, estou enlouquecendo,” disse com os dentes cerrados,”onde está Deus? Se haveria a possibilidade de comunicação seria agora!” Sim, esse realmente seria o momento perfeito, pois já não havia nenhuma possibilidade de contato com a Terra, era um momento de solidão inimaginável de tantas formas!  
O interessante é que nos exames e testes feitos antes do início da expedição seus resultados haviam sido os melhores, então estava sim, absolutamente apto a enfrentar aquela situação, mas em algum momento o elo da corrente havia se rompido, algum problema com a nave, e as emoções se tornaram mais fortes do que a razão.
Uma palavra ocorria com urgência em seus devaneios: “-Oroboro!”. Como mágica seus olhos se iluminaram, conseguiu compreender então. Algo havia saído fora da rota de seu entendimento, mas nesse momento pôde captar a mensagem! Ele amadureceu e se curou!
No outro dia, que era um dia comum, uma quarta-feira, com a luz do sol da manhã nos olhos ele acordou, abriu os olhos, sua esposa estava ao seu lado, ele finalmente despertou do coma em que estava havia 3 anos!

domingo, 1 de abril de 2012

Desabafo de mais um na multidão (Conto n°1?)


"Enquanto fábulas eram tecidas no emaranhado das histórias da vida. Estava eu na densa floresta contemporânea, inconsciente, como que dentro de um delirante sonho. Era apenas uma criança.
 A neblina matinal impedia que visse o que acontecia na realidade. Assim garoas dão a impressão de dilúvios. Enquanto caminha a humanidade sempre está em uma fase de transição até que tudo se transforme em fumaça e lembrança.
O destino do destino é ocasional, são voltas ao redor do sol que dá voltas ao redor do centro da galáxia, não é?"
Fui raptado, este é o caso, eu tinha apenas 2 anos de idade. Levado para a Europa e vendido, tráfico de crianças, era uma encomenda para um casal.
Nuvens dançavam com a canção das horas, olhos distraídos embriagados de ilusão. Como eu não iria amar meu pai e minha mãe? Não sabia de nada!
Cresci e me tornei um rapaz de bem, trabalhador e noivo, mas como essa poderia ser uma história feliz? Descobri com a idade de 35 anos que toda minha vida era uma mentira, estava prestes a me casar, e ao fazer alguns simples exames de sangue descobri tudo. Foi uma convulsão da vida, da vida que vivia. Me descobri uma vítima indefesa da maldade alheia. Percebi assim que não necessariamente a vida é "engraçadinha" como um filme de comédia.
"No labirinto escuto o som de risos, o sol ainda é apenas uma tênue claridade". Como alguém tem coragem de fazer isso com uma pobre e indefesa criança? Provavelmente despedaçar o coração de uma mãe, de um pai?
Descobri meu pai e minha mãe biológicos, dois camponeses pobrezinhos perdidos em um rincão qualquer do Brasil. Eles me receberam tão bem! Minha mãe biológica chorou de felicidade, me beijava entre lágrimas dizendo que nunca dormia sem pensar em mim; meu pai, um homem rude não sabia o que fazer, a vida não lhe deu tempo de desenvolver doces amenidades no espírito, muito ao contrário ela foi dura com ele. Me contaram toda a história, uns homens chegaram na humilde propriedade se fizeram amigos e conheceram toda a disposição da casa, os horários, e um dia sorrateiramente invadiram a casa e me levaram embora.
Agora vago pelo espaço habitado onde costumava pensar que estava em casa como um fantasma. Casa é uma palavra que me soava tão aconchegante, essa palavra era como uma imensa catedral, que estava salva da maldades do mundo, e de repente tenho que enterrar dentro do meu peito toda essa significação, uma lágrima é uma inundação em minha alma. Sinto-me um estranho no ninho, não me sinto dentro da minha própria vida. Essa é a história da minha vida sem mim. Eu não estou lá! No meu lugar de fato, se é que isso existe. É como se estivesse fora do eixo, e de repente por um breve instante vislumbrasse toda a realidade, como ela realmente é, oblíqua. Era tanta luz, daquele tipo que pode cegar. Sinto uma angústia que chega a faltar o ar, é essa percepção de que sou um tolo, que foi manipulado boa parte da vida que incomoda!
E como olhar nos olhos dos meus pais adotivos e não ficar apreensivo? Como não sentir uma pontada de receio, afinal de contas eles se envolveram com algo criminoso.
Sou um adulto, mas um adulto modificado com relação a visão de mundo, tudo estava torto, e agora a verdade direta é... nem sei dizer...ah, que seja.
E, no fim, o que poderia significar tudo isso? Esse é penas o desabafo de mais um perdido no meio da multidão.