terça-feira, 12 de junho de 2012

Enjambement desambientado (2)


                             
As velhas gargantas úmidas de uísque me dizendo que está próximo o dia de minha morte...São pessoas a volta da minha cama, a moça que disse ser minha filha chora e(...) é engraçado, essas pessoas que vieram para, aparentemente, visitar-me são parentes que a muito tempo não via, pessoas que na última vez que vi nem queriam estar perto de mim, vieram assistir de camarote o meu triste fim e é um saco pois não faço ideia do que esta acontecendo.
Ah, que pena estar assim por baixo diante de pessoas que acreditam poder dar respostas para as simples perguntas que me fazia em voz alta às vezes, agora possivelmente vão ficar com a idiota impressão de que elas sempre estiveram certas e eu errado e agora estou sendo punido. São todos uns babacas.
“-Você já leu o livro da vida? Quanto tempo ele tem? O que os seus instintos podem saber?” já pensei em tantas respostas para eles, mas nunca tive coragem de dizer, sempre me pareceram resposta grosseiras demais.
Caio em um tipo de sonho, novamente, onde estou sozinho em uma estrada, o sol do meio-dia, as roupas estão em farrapos. Mas, estranhamente, estou bem, lanço um sorriso para o futuro incerto, agora não há mais volta. Estou no controle da situação. Uma música toca suavemente em meus pensamentos. O medo e as decepções simplesmente se dissiparam. Estou caminhando sozinho e o sol é de rachar. Fazia muito tempo que eu não me sentia tão bem. Lembranças me ocorrem abruptamente, estou na cama me remoendo em ódio, raiva, nervosismo todo um circulo vicioso e doentio, arrastando velhas amarguras comigo, e de repente como se em um minuto tivesse aprendido o equivalente há 100 anos, percebo que essas mesquinharias não servem de nada, só estavam atrasando minha vida, estou curado dessa doença que é o rancor, o lance todo no fim das contas é a gente se ajudar o máximo que puder,como naquela música do Bill Withers, chamada Lean on me, é tão simples. O problema é que agora não sei o que é sonho e o que é realidade.

domingo, 3 de junho de 2012

Enjambement desambientado

                                                            1
 
“A vida é um curto sonho” ditado romano


 Então é o seguinte, pense que você está afogando, você está no meio do mar no fundo da água e não consegue respirar, isso é desesperador, agora pense no dia a dia cheio de restrições e impossibilidades que nos são impostos pela sociedade, pense em tudo o que você sonhou ou quis e que foi assim castrado nos seus desejos mais íntimos e que você escondeu o melhor que pode para não ser descoberto. Era assim que eu me sentia, afogado pela rotina, esse livro é um respirar, é aquele momento em que cessa o desespero e se consegue boiar, aquele momento que pode ser breve, mas que se torna eterno, pois da uma guinada na vida, e em alguns segundos se vislumbra o todo e o sempre através dos tempos e se compreende e mata a sede de sonhar nesse mundo cercado de duras realidades sociais/políticas/econômicas/emocionais e se respira deixando todo o arcabouço de imposições para trás, não é um perda de responsabilidade, mas sim um simples e honesto respirar.”
E então eu acordei, abro meus olhos estou deitado em uma cama e sinto meu corpo alquebrado fraquejar de uma tal forma irreversível. Estranha sensação. Uma moça chora do meu lado direito na cama. Olho para minha esquerda. Tem um espelho, e me vejo. Estou velho, não um pouco velho estou muito, muito velho.”Será que isso é um sonho?” é o primeiro pensamento que me ocorre, pois até onde me lembrava havia acabado de fazer 29 anos. “-Como estou velho!” murmuro pra moça ao meu lado; “-Não, pai, você ainda é jovem, precisamos muito de você, aqui com a gente”. Faço o máximo de força que posso, pois percebo que ela aparentemente está maluca, no espelho e na sensação é evidente que estou nas últimas, mas, opa! E se eu sofri algum acidente e estou delirando? “Meus pensamentos me acometiam em forma de flahes”. E ela me chamou de pai, até onde sei, eu não tenho filho ou filha, e creio que esse é o tipo de coisa que eu saberia.