As velhas gargantas úmidas de
uísque me dizendo que está próximo o dia de minha morte...São pessoas a volta
da minha cama, a moça que disse ser minha filha chora e(...) é engraçado, essas
pessoas que vieram para, aparentemente, visitar-me são parentes que a muito
tempo não via, pessoas que na última vez que vi nem queriam estar perto de mim,
vieram assistir de camarote o meu triste fim e é um saco pois não faço ideia do
que esta acontecendo.
Ah, que pena estar assim por
baixo diante de pessoas que acreditam poder dar respostas para as simples
perguntas que me fazia em voz alta às vezes, agora possivelmente vão ficar com
a idiota impressão de que elas sempre estiveram certas e eu errado e agora
estou sendo punido. São todos uns babacas.
“-Você já leu o livro da vida?
Quanto tempo ele tem? O que os seus instintos podem saber?” já pensei em tantas
respostas para eles, mas nunca tive coragem de dizer, sempre me pareceram resposta
grosseiras demais.
Caio em um tipo de sonho,
novamente, onde estou sozinho em uma estrada, o sol do meio-dia, as roupas
estão em farrapos. Mas, estranhamente, estou bem, lanço um sorriso para o
futuro incerto, agora não há mais volta. Estou no controle da situação. Uma
música toca suavemente em meus pensamentos. O medo e as decepções simplesmente
se dissiparam. Estou caminhando sozinho e o sol é de rachar. Fazia muito tempo
que eu não me sentia tão bem. Lembranças me ocorrem abruptamente, estou na cama
me remoendo em ódio, raiva, nervosismo todo um circulo vicioso e doentio,
arrastando velhas amarguras comigo, e de repente como se em um minuto tivesse
aprendido o equivalente há 100 anos, percebo que essas mesquinharias não servem
de nada, só estavam atrasando minha vida, estou curado dessa doença que é o
rancor, o lance todo no fim das contas é a gente se ajudar o máximo que puder,como
naquela música do Bill Withers, chamada Lean on me, é tão simples. O problema é
que agora não sei o que é sonho e o que é realidade.
