sexta-feira, 20 de julho de 2012

6000 km depois (Parte 3-Final)


Eu, o Marcos, o Alex, o Jone e o... tinha mais uma pessoa que não me lembro o nome, estávamos conversando e falei a respeito de morar em um lugar distante dos grandes centros, “mais para o oeste, cê ta me entendendo?”, nas implicações disso, e em como não conseguiria responder a simples questionamentos contrários a essa ideia, como já escrevi anteriormente;  “E se você precisar ir para o hospital? E se quiser sair (pra balada) e tudo o mais”, eles entenderam e falaram um pouco a respeito de morar “mais a oeste”, o Alex é de São Paulo e estava morando na região a um ano, e o Jone e o outro rapaz são nascidos la mesmo e sempre moraram por ali, já o Marcos também achou uma ideia boa, mas também não teve respostas satisfatórias para as perguntas em contrário,  conversamos também sobre a vida e como ela é uma viagem “transcendental” também, transcendemos a matéria pelo pensamento e esse tipo de papo de quem já havia bebido boas doses de álcool.Pensamos também sobre o que é inteligência, afinal? Pois se percebe que existem pessoas com uma “Inteligência matemática”, por assim dizer, eles são bons com números, são mais práticos, pragmáticos, é algo que obviamente vai render mais dinheiro. A pessoa se encaixa em alguma carreira, algum curso de engenharia e é mais promissor em termos de possibilidade de ganhar dinheiro. É um tipo de dom mais valorizado na sociedade atual. Existe também um tipo de “Inteligência emocional” a pessoa tem mais facilidade em relacionar-se com o meio e as pessoas com quem convive.
É claro que apenas estávamos generalizando e também talvez essa tenha sido meio que uma conversa de bêbado, mas concluímos que é óbvio que as coisas não são tão simples assim, embora faça certo sentido.
No fim decidimos, para fechar a conta, que a vida simples de um camponês qualquer, perdido em algum rincão do Brasil, que chega todo sujo de terra à tardezinha em casa e sente o cheiro do jantar que a esposa está preparando pode ser mais cheia de felicidade que a vida nos grandes centros urbanos toda burocrática, cheia de tanta tecnologia, código de barra coisa e tal, o lance é buscar a simplicidade, ou não?
Cultivar a sua horta e ficar em paz, assim como a personagem do livro do Voltaire, “Cândido” é o mais correto? Pode ser que sim. Viver satisfatoriamente em comunidade sendo essa comunidade uma grande ou pequena cidade, uma vila, uma ilha, uma tribo, uma casa é muito importante, é uma arte, respeitar os outros, respeitar o planeta.
O comportamento humano, tradicionalmente é predador, imediatista, favorável ao desenvolvimento a qualquer custo, para não dizer comportamento individualista e egoísta, é a causa mais importante da crise ambiental em que nos envolvemos e essa crise é no final das contas reflexo de uma vida em sociedade onde as relações são no mínimo equivocadas.
É essa coisa de querer se dar bem em tudo! E não digo isto apenas em grandes âmbitos políticos, isso começa conosco mesmo. Por exemplo, que problema poderá causar uma ponta de cigarro jogada em uma estrada deserta? “Claro que nenhum”, parece ser a resposta mais natural, apesar do sem número de inofensivas pontas de cigarro que já causaram incêndios em grandes extensões de mata.
E, com esse mesmo esquema lógico, argumentaria o industrial: “Uma chaminé a mais a poluir, uma a menos, que mal poderá trazer para o ar do nosso bairro e para os seus moradores?”.
Vimos uma castanheira antiga “pra caramba” no caminho para o aeroporto, mas infelizmente não tiramos foto, e o taxista que nos levou era gente boa demais e nos falou um pouco a respeito de Igarapés, da rodovia transpacífico, e foi isso, pegamos o avião, descemos em Campinas, e voltamos de carro para Piracicaba.
Sempre que se aproveita a viagem você muda, e quando se volta tudo está mais ou menos do mesmo jeito (A não ser que a sua viagem seja à velocidade da luz, só que aí é outra história), mas você mudou, você aprendeu mais, você cresceu, e não se sabe ao certo como, e não se sabe ao certo nem o que se aprendeu, mas por mais que pareça pouco, na verdade não dá para saber se foi mesmo, acho que isso ficou um pouco confuso, mas vou esclarecer com algo que li em um livro: é como dizia Kerouac, “a vida é uma série regular de desvios” dos nossos objetivos. Quando alguém é desviado de um objetivo, explica Kerouac, ele ou ela estabelece um novo objetivo da qual será também igualmente desviado. Esta série de desvios não assume o padrão de um navio que segue o sopro do vento, movendo-se sempre em frente; em vez disso esses desvios são como uma série de voltas a direita que continua até que façamos um círculo completo que circunscreva uma “coisa desconhecida” que seja “central para a existência”. As tentativas de evitar, o que ele chama de Círculo do Desespero terminarão em fracasso, porque “a linha reta levará somente à morte”.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Enjambement desambientado (3)


“Era uma vez...não havia nada, não havia relógios, não havia solidão, não havia tempo, não existiam proteína e carboidrato, não havia espaço, nem mesmo hora do almoço, não havia “era uma vez”... não "era" nada do que viria a ser.
Então fez-se o espaço-tempo, mas éramos crianças, se bem que nós provavelmente nem éramos, até 4,5 bilhões de anos atrás surgirmos, como um todo completo e improvável. E foi longe, e cheio de curvas, esse caminho, levou longe, além do desconhecido; mas em alguns momentos de súbita e trabalhosa lucidez conseguimos ver ordem no caos, no cosmos, e para traduzir as surpreendentes estruturas do universo criamos abstrações, sistemas de interpretação, nossas palavras, letras e números, maneiras de ler o todo, tentar encontrar Deus quem sabe.
E nossas abstrações, nossa cultura, são o reflexo de tudo o que nos constitui, são o alicerce da humanidade, são mais do que essas tentativas de definição que cabem em minhas palavras.”
            Agora eu estava sentado em uma carteira dentro de uma sala de aula, e o professor falando da Teoria do Big Bang ou algo assim. Não era possível, alguma coisa estava fora de controle. Alice caindo pelo buraco sem fundo, só faz cair e cair e da tempo até de divagar de tão fundo que é o buraco. Como se Dom Quixote liberto de Cervantes estivesse descobrindo os moinhos reais por ai, como naquela música do Alceu Valença: “Agalopado”.
            “Humildes de todas as épocas, na penumbra da manhã, olhando as estrelas, o sol nascente...” o professor não parava sua explicação.
            Alguém levantou a mão do outro lado da sala.
            “Mas, professor, não estou entendendo essa sua linha de raciocínio.” perguntou o aluno.
            “Estou tentando demonstrar por meio de estruturas básicas para ser possível entender o que quero dizer.” prosseguiu o professor “Em todas as sociedades humanas que já existiram é possível visualizar essa imagem, ‘na penumbra da manhã, olhando as estrelas, o sol nascente’”.
            “Entendo” respondeu o aluno.
Então o professor naquele anfiteatro com umas cem pessoas olhou-me e disse:
            “Volte-se para a busca filosófica”, empalideci e ele continuou ”Nosso ponto de partida deve ser duvidar de tudo” ele então se voltou para o resto da sala, abriu um livro que estava em suas mãos,”Quando penso com cuidado no tema, não encontro uma única característica capaz de marcar a diferença entre o estado acordado e o sonho’, escreve Descartes. E prossegue:’ Tanto eles se parecem, que fico completamente perplexo e não sei se estou sonhando neste momento”.
            Percebi então que segurava em minhas mãos o mesmo livro que o professor lia nesse momento, “O mundo de Sofia”.
            “Jeppe Vom Berge também acreditava ter sonhado que dormira na cama de um barão.”
            “E quando estava na cama do Barão achava que sua vida como pobre camponês não passava de um sonho”. “É por isso que Descartes acabava duvidando de tudo.”